Luana Schrader
Os ponteiros do relógio deslizam suavemente, uma dissonância gritante da realidade pungente.
Clique-claque.
Tic-tac.
Estou me afogando e ninguém percebe. A vida me engoliu e me digere a cada segundo.
Claque. Tic.
À deriva. Perdida. Insuficiente. Escondida – de mim e da vida.
Diante dos meus próprios olhos, sumi.
Uma tragédia shakespeariana ou a crueza clariciana da banalidade da vida.
No ritmo de um suspiro, a névoa das angústias e incertezas esmaeceu o que antes era vibrante. Lugares que outrora eram porto seguro, por um descuido, se tornaram asfixia lenta.
Pisar em ovos para não esmagar corações. Que corações? Os outros.
O meu? Dizem que não tenho. Quiçá de gelo. Por vezes de aço. Miocárdio abstrato.
Sentimentos enlameados. Choro sufocado.
Quero fugir. De mim. Do mundo. Das pessoas. Dos afazeres. Das dúvidas. Das cobranças. Da vida.
Clique-claque.
Tic-tac.
“Não quero repetir padrões”, mas algo em mim é um ímã de repetições. Sem querer, me transformo na vilã de todas as histórias.
“Ora, hipocrisia seria negar que também sou a antagonista da minha frágil vida. Veja bem a ironia: incoerente que sou, prefiro negar meus tão pesados sentimentos e curvar os lábios como esperam de mim.”
Sorria.
Sorria.
Sorria.
Abraços acalorados viram amor desenfreado, ligações entrecortadas, malditos padrões.
Prisões.
Não retribuir sentimentos é um defeito? Me sufoco para não magoar.
Mas quem?
Se a pessoa mais importante da minha vida está sofrendo?
Ah… como me sufoco para não machucar.
Os outros.
Acho um crime me priorizar.
Que desgosto.
Vá à merda, sociedade. Que se explodam as convenções. Que se danem as ilusões.
Tic-tac.
A morte vem me dar um oi. Sorrisos desbotam em preto e branco, lembranças antes coloridas jazem em sépia. Mãos enrugadas que me acalmavam, em um sopro começam a se desintegrar.
Clique-claque.
O chão foi arrancado e meus pés descalços flutuam no ar. Desamparados. Amar se transformou em um sussurro sufocante.
Minha cabeça oscilante, sentimentos conflitantes.
Para.
Preciso respirar.
Ar.
Me falta o ar.
Preciso de silêncio.
Anseio por tempo.
Tac-tic-tac-tic-tac-tic-tac-tic-t-a-c.
Maldito tempo que no tiquetaquear descompassado se transforma em pretérito passado.
Ponteiros acelerados.
Corações palpitantes.
O que era bom já não é mais.
Sumiu ou sufocou.
Clique-claque.
Tic-tac.
Devo ser a errada. Minha empatia desenfreada mergulha na necessidade de não magoar.
Tento agradar, usar boas palavras e no final?
O punhal que eu mesma seguro está nas minhas entranhas.
Que sangram.
Ora, sangrariam de qualquer forma, então por que diabos eu não me acolho e muto o mundo?
Vai doer. Sempre vai.
Sofrimento? Inerente à existência humana. Todos iremos sofrer.
A exaustão é mental, é global.
Quero correr pela rua,
nua.
Nua de mim, livre de amarras e do que me ensinaram a acreditar sobre quem sou ou deveria ser.
Clique-claque.
“Boa menina”, “Você sempre entende”, “Você sabe tudo”, “Você não dá problemas”, “Eu quero você”, “Você não pode falar tantos palavrões”, “Você tem que…”, “Você deve”.
Você. Você. Você.
(você, o caralho)
Claque-tic.
A perfeição não existe e correr atrás dela é perda de tempo.
Esgota. O tempo e a alma.
Cansei.
Cansei de ser boa. Cansei de ser desejada. Cansei de ser objetificada. Cansei de fazer o que esperam de mim.
Que se foda.
A boa menina é uma vilã.
Na história de alguém, mas não mais da sua própria narrativa.
Tac-tic-tac-tic-tac-tic-tac-tic-t-a-c.
Quero me amar. Quero me respirar. Quero me lambuzar na delícia de ser quem sou. Liberdade da prisão. Se vou beijar homem ou mulher? Não se sabe. Para onde irei para me reencontrar? Boa pergunta. Se estou bem ou estou mal? Fica a dúvida. Se faturo ou passo fome? Que se dane. Perdoei ou guardei rancor? E eu lá sei? Estou aqui ou acolá? Tanto faz. Tan-to faz.
Tic-tac
Clique-claque.
Aquela mulher morreu há um tempo, mas renasceu na lama. Como fênix, cuspiu fogo e carbonizou tudo o que não quer mais. Olhos de lótus, força de mil leões.
Hora da reconexão com quem mais importa, hora de ir embora e não olhar para trás.
O reencontro da mulher com o seu próprio self é mais poderoso do que qualquer declaração de amor ou de renda.
Clique.
Eu estou me afogando e é como se eu morresse um pouco a cada dia.
“Ora, e não estamos todos morrendo?”
Claque.
Tempo. O que fizemos do tempo.
Clique-tic-claque-tac-tic-tac-claque-tic-clique-tac-tic-tic-tic-t-a-c.
O tempo segue transcorrendo, os ponteiros vacilam, mas ainda temos até o último claque.
Clique.
Cla-
que.
*Texto publicado na Revista Autorretratos em 10 de Março de 2025*