Cinzas


Luana Schrader

Sinto como se meu corpo fosse uma floresta devastada por uma queimada. O toque das cinzas, os galhos partidos, o chão quente, a ausência de vida visível. O brilho do olhar dourado, apagado pela nuvem de fuligem que paira sobre o ar.
As mãos ardem e a pele rasga, como se por baixo ainda existisse alguma força divina que clama por ser expelida.
No horizonte, enquanto rastejo para subir à superfície, avisto vestígios do que eu era. De quem fui. De quem serei.
É como se eu estivesse presa no limbo entre tempo e espaço, entre as incertezas do futuro e as esperanças de dias melhores. Mesmo agora, com tudo embaçado e vertiginoso ao meu redor. Dentro de mim.
Dizem que bruxas não envelhecem, e eu diria que bruxas também não morrem.
Corpo-templo. Alma-divindade. Espírito sagrado.
Os tambores retumbam e embaixo da terra, mesmo que você não as veja ainda, sei que sementes divinas seguem intactas.
Suspiro.
Mais um pouco. Vamos!
Um rugido de leão reverbera pelas minhas costelas, a dor de mais uma fissura rasgando as veias, o batimento descompassado de um miorcárdio que já passou pelas maiores interperies e o sopro suave da brisa dourada que chega para iluminar os destroços do que ficou.
Sorrio. Olho para cima e uma lágrima escapa das folhas verde absinto de uma árvore que foi poupada pela dor.
A mesma árvore que segue iridescente em meu peito.
— Vai passar — sussurram as almas ancestrais que com cuidado, me levantam do chão.
Me permito ser auxiliada e entrego o meu corpo para os seres curativos vindos de mundos distantes, os mesmos que inúmeras vezes vieram me resgatar e envolver em feixes de luz verde.
A floresta vai brotar de novo.
Eu vou voltar a respirar.
Eu só preciso pausar.
Um feixe de luz surge entre frestas de galhos e ali eu tenho certeza de que tudo renascerá.
A floresta. A minha força. Eu mesma.
Mais forte.
Rio e assopro as cinzas, sabendo que é questão de tempo para que elas virem pó estelar e transformem o cinza em verde, e a dor em renovação.
Debaixo da terra queimada, já estão os brotos. Eles sempre estarão lá.
A primeira flor que nasce depois do incêndio tem outro tipo de coragem.
Sem pressa, no meu tempo o templo retornará como fortaleza sagrada.

*Texto originalmente postado no Substack, na newsletter “Cartas para alguém”, em 27 de julho de 2025.

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Luana Schräder

E-mail: contatoluanaschrader@gmail.com

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