O fantasma do tempo


Luana Schräder

“O pior de envelhecer é que não se envelhece.” – Oscar Wilde

Ainda sobre os insights do livro ‘O perigo de estar lúcida’: tive um que foi de certa forma perturbador.
Rosa Montero discorreu sobre o passar do tempo. Sobre a idade, sobre o envelhecimento, sobre cair nesse “buraco de minhoca espaço-temporal”, como citado pela mesma.
Rosa fala sobre a tristeza da aposentadoria (algo que imagino ser quase impossível para a minha geração), não a dela, mas sim a dos outros.
A autora comentou sobre o fato de que em um belo dia, o dentista, o médico, a gerente de banco, a livreira e tantos outros profissionais que ela conhecia há trinta anos, se aposentam. É como se fossem varridos por uma vassoura cronológica que os apaga e a faz se encontrar sem conhecidos à sua volta.
E é nesse ponto, sobre o não conhecer ninguém à sua volta, que eu chego na minha grande reflexão. O meu insight veio em algumas camadas, mas filtrei e dividi em dois pontos:
1. Eu tenho medo de envelhecer.
2. Eu não consigo morar muito tempo em um mesmo lugar.

Eu tenho mais medo de envelhecer do que de morrer. Não sei se isso é algo que foi incrustado na minha mente devido a absurda pressão estética feminina ou apenas porque a passagem do tempo me apavora. Ainda é uma pauta para esmiuçar na terapia, mas entrelaçado a esse drama de envelhecer, eu percebo que não tenho problema algum com a questão de Rosa Montero. Sobre a agonia de perceber que não tem mais nenhum conhecido por perto, depois de tantos anos.
E isso se deve ao fato de que eu raramente tenho conhecidos ao meu entorno. Eu que sempre me mudo geograficamente – internamente também, mas não é o foco hoje –, sinto como se as pessoas fossem temporárias na minha vida, assim como os locais pelos quais eu passo.
Eu conto nos dedos de uma mão os amigos que mantenho há algumas décadas, coleciono amizades em cada canto do mundo, mas a minha proximidade real é com no máximo cinco.
Mas eles estão sempre longe, ao menos fisicamente.
Dito tudo isso, o fato que fez minha mente explodir é o de que a contagem do tempo fica difícil para mim. Estou sempre em movimento, novos lugares, novas pessoas, novas histórias.
De alguma maneira, me senti um pouco Peter Pan por não presenciar o envelhecimento das pessoas que fazem parte do meu passado. E também, por saber que possivelmente nem presenciarei o de todas as pessoas que estão no meu presente. De certa forma, isso desce com um sabor agridoce e não sei distinguir ao certo as emoções que me causam.
Eu não sinto a passagem do tempo pela ausência daqueles rostos da convivência diária, até na aparência tenho certa dificuldade de perceber – ao menos por enquanto, que ainda acham que tenho 20 anos. Bendita genética!
Enfim, talvez o meu vício em ir embora faça com que eu não sinta a passagem do tempo. Mas talvez, seja exatamente esse hábito que me faça perder algumas etapas da vida. Não crio tantos vínculos, coleciono histórias e carimbos, mas quando a situação aperta, nem sempre eu tenho um rosto conhecido para me consolar ou brindar comigo. Ao menos, não na “modalidade presencial”.
Quem sabe envelhecer não seja apenas sobre a data no calendário e o número que muda na vela de aniversário, mas também sobre vínculos que construímos ao longo dos anos e presenciamos o amadurecimento. Como quando éramos crianças e plantávamos o feijãozinho que víamos florescer.
Enfim, eu não tenho medo da solidão. Tenho medo de perder a liberdade de ir e vir, de me arriscar e desistir, de descobrir e aprender. Mas quem sabe, o “ir embora” faça com que eu perca alguns vínculos e momentos. Talvez, a minha ânsia por viver, culmine na perda de abraços e conexões.

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Luana Schräder

E-mail: contatoluanaschrader@gmail.com

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