A linha tênue entre criatividade e loucura


Luana Schräder

O mundo em que vivemos é em boa medida uma alucinação, não à toa tememos que o contágio das doenças mentais abale de vez nossa estrutura. ~ Rosa Montero (O perigo de estar lúcida).

Como se soubesse o que se passa na cabeça de um criativo – e ela sabe! –, Rosa Montero iniciou ‘O perigo de estar lúcida’, confessando: “Sempre soube que alguma coisa dentro da minha cabeça não funcionava direito.”
Ah, Rosa… eu também sempre soube que eu era de alguma forma, diferente.
No livro, a autora discorre sobre a linha tênue entre a criatividade e a loucura, afinal, os mesmos mecanismos do cérebro de um artista também são ativados no de uma pessoa com problemas psiquiátricos. Sabemos que diversos artistas (e por artistas, entenda escritores; pintores; cantores e toda a classe artística) flertaram com a loucura no decorrer de séculos, muitos cometeram suicídio, foram expostos a tratamentos de choque (literalmente!!!) e foram parar em sanatórios.

“Não há gênio sem uma dose de loucura.” - Sêneca

O que me chamou atenção – e também foi alvo de análise da autora – é que eles tinham mais uma coisa em comum, além da loucura: eles não imaginavam viver sem a sua arte. Seja a escrita ou a pintura, seja a música ou a encenação. Todos precisavam da sua criatividade como quem precisa de ar. E muitas vezes, era justamente por não poder mais viver de sua faísca criativa, que se afogavam em sua própria mente.
Cientificamente isso tem uma explicação, obviamente. Rosa cita Dierssen, que considerava que “uma propriedade fundamental do cérebro criativo poderia ser a desregulação de diferentes neurotransmissores, em especial a dopamina”. E surpresa surpresa: “os neurotransmissores também estão alterados nos casos de transtorno mental. Portanto, talvez a diferença entre a criatividade e o que chamamos de loucura seja apenas quantitativa.”

Você já se pegou viajando em histórias criadas em momentos inesperados? Algo tão natural quando respirar, que surge em momentos que vem a faísca da inspiração e voilà, uma história começa a passar pela mente.
Eu sempre tive isso e lendo ‘O perigo de estar lúcida’ me senti acolhida por ver que essa loucura é algo inerente aos cérebros criativos e compartilhada entre tantos de nós.
Inclusive, foi nesse impulso criativo que Rosa Montero criou o esqueleto de um romance enquanto andava em um trem e observava um sujeito excêntrico. (O livro foi publicado e se chama “A boa sorte” – obviamente já está na minha lista de leitura).

Em suma, loucura ou criatividade, acho que um pouco de cada é o que todo mundo precisa para sobreviver ao mundo doentio em que vivemos, né? Talvez todos nós estejamos constantemente nos equilibrando tal qual um equilibrista de circo em sua bicicleta, nessa linha tênue entre a loucura e a criatividade. Afinal, como disse Montero, talvez essa diferença seja apenas quantitativa.

Achei uma associação genial e confesso que já tinha me deparado com esse questionamento de “será que estou louca?” quando era apenas minha mente criativa em ação.

Doidos ou não, acho que o cérebro criativo precisa de uma dose de loucura para se manter são, e a loucura precisa de uma pitada de criatividade para fugir da patológica. Ou não. São apenas suposições baseadas no meu achismo próprio, que com certeza tem altas doses de loucura entrelaçada com criatividade.

voltar

Luana Schräder

E-mail: contatoluanaschrader@gmail.com

Clique aqui para seguir este escritor


Site desenvolvido pela Editora Metamorfose