Luana Schräder
O relógio mostra três da manhã, mais uma hora passou e o tempo suspenso entre a insônia iluminada e a escuridão das entre-horas marca mais sessenta minutos na ampulheta da vida.
Como uma panqueca virando na frigideira, me reviro de um lado para o outro. Encaro o teto, esperando que uma tela se abra e passe em HD todas as últimas horas que vivi. Mentalmente, repasso o dia – relembro cada linha e entrelinha dita naquela sala branca, fria como as paredes gélidas de um iceberg.
Expectativas quebradas. Esperanças esfaceladas. Um futuro tão incerto quanto o ponto da tal panqueca que prometi fazer para comemorar quando tudo isso passar.
Um riso incrédulo escapa pelos meus lábios e me escondo sob o travesseiro, que sufoca menos do que a realidade cruel e inesperada em que minha vida se transformou.
Da noite para o dia, de um segundo para o outro, o mundo virou de cabeça para baixo. Não sei mais qual é o lado certo. Nem quem sou. É quase como se tivesse me perdido em algum vão escuro e agora a luz se foi. Na noite gelada, os devaneios sufocam tanto quanto a dor física e mental que me aprisiona em meu próprio corpo.
Pela janela, me perco em pensamentos e me distraio enquanto conto os apartamentos ainda acesos. Entre centenas, só uma dúzia brilha na madrugada.
“O que estariam fazendo?”
Para fugir do meu próprio drama, invento narrativas para cada morador, cada sacada iluminada, até mesmo para os poucos carros que cortam o asfalto frio e silencioso.
A madrugada conta tantas histórias – algumas belas, outras prazeirosas, tantas outras angustiantes.
Desta vez, estou do lado sombrio da noite. Perdida em pensamentos, medos… e, claro, nas histórias que crio para me salvar do buraco em que caí sem querer.
Será que, na sacada iluminada pela luz fria, alguém sonha com uma cura impossível? Ou naquele apartamento de luz azul, vive um amor digno de novela? E a casa com jardim verde-absinto? Será palco de festas exageradas, repletas de prazer e delírio? Tantas facetas. Inúmeras camadas. Vidas diferentes, despretensiosamente conectadas.
E se a vida fosse como um livro, em que o final é sempre feliz?
Em madrugadas ansiosas, gosto de imaginar histórias assim, em que não existe outra possibilidade além de um futuro milagroso.
No meu apartamento, a luz amarela esconde uma mente inquieta que escreve para se despir dos medos acesos pela realidade nua, crua.
Em tempos de crise, criar realidades fictícias é a minha forma de manter viva uma coisa que chamam de fé. Entre tantas luzes apagadas, talvez o milagre esteja nessa dúzia seleta de amantes da madrugada.
Como já dizia Lenine: “Quando tudo pede um pouco mais de calma e o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para.” No carrossel da vida, fingimos paciência para sobreviver, e quem sabe perceber a raridade de estar vivo.
Um pouco de calma. Um tanto de alma. E seguimos com as luzes acesas, à procura daquele milagre que a noite alta oferece, ao nos permitir sonhar com aquilo que o dia jamais ousaria mostrar.