Luana Schräder
Se você está na internet, obviamente já ouviu falar no Bearista Cup. Sim, o novo copo natalino tendência da Starbucks que alcançou o patamar do fatídico Labubu – mas aqui não entrarei em uma análise mais profunda (ainda).
A questão, como profissional do marketing, é que venho observando um movimento bem tendencioso entre as marcas que vem movimentado o mercado capitalista.
Como escritora, gosto de juntar o conhecimento técnico do marketing com uma análise mais profunda do que existe por trás da urgência fabricada no capitalismo moderno.
Bauman já descreveu a sociedade líquida, onde tudo é acelerado, substituível e precário – inclusive nossos desejos. Mas cá entre nós: estamos perdendo a mão. O consumo se tornou desenfreado, embalado por uma sensação de exclusividade que rapidamente se transforma em frustração.
Voltando ao copo bonitinho e desejado... sim, eu também fiquei louca para ter um – mesmo sabendo que ele provavelmente ficaria largado em um armário depois de algumas semanas e fotos.
O Bearista Cup está repetindo o mesmo enredo do Labubu. E aqui, não no sentido pejorativo, mas sociológico: uma pequena peça de plástico ou acrílico se transforma em símbolo de status. Guy Debord diria que estamos assistindo a mais um capítulo da Sociedade do Espetáculo, onde objetos ganham vida própria e se tornam espetáculos em si mesmos — e nós, espectadores-participantes, fazemos filas monumentais de madrugada para “fazer parte”.
Um dos gatilhos usados para instaurar essa urgência é clássico: exclusividade.
Baudrillard chamaria isso de simulacro: não compramos o objeto, mas a hiper-realidade que ele simboliza — pertencimento instantâneo, conforto emocional, uma narrativa de identidade embalada em edição limitada.
A marca cria uma mitologia ao redor do produto e voilà: poucas unidades, apelo afetivo, storytelling visual. Assim como a febre do Labubu, que veio de mãos dadas com um desejo quase infantil de conforto, o Bearista Cup seduz o consumidor com o imaginário de um urso calmo, acolhedor, que promete um ritual de autocuidado em meio ao caos.
A verdade é que o neuromarketing explica a eficácia desse apelo: estamos implorando por símbolos de conforto em um mundo exausto. Byung-Chul Han já afirmou que vivemos na Sociedade do Cansaço, e talvez esses rituais estéticos sejam pequenas doses de anestesia emocional.
Mas voltando ao Bearista Cup e ao marketing matador da Starbucks: o que isso tem a ver com Bauman e com a minha reflexão sobre a sociedade do consumo?
Tudo. Absolutamente tudo.
A Starbucks transformou um pedido com o nome no copo em um rito global de identidade. Quem nunca fez uma foto clichê do próprio nome escrito de forma quase errada em um café aesthetic? Isso não é acaso, é pertencimento manufaturado.
A sacada do novo copo desencadeou o desejo por exclusividade, da mesma forma que o Labubu. Criou-se um imaginário coletivo, uma microfantasia afetiva. Lipovetsky chamaria isso de sedução leve: pequenas alegrias embaladas como experiências, vendidas como escapes emocionais em um mundo acelerado e sufocante.
São micro momentos de glória coletiva, quase um espetáculo moderno que flerta com a velha política do pão e circo: urgência desmedida, filas, produtos esgotados. Mentes esgotadas.
Em suma, as marcas entenderam perfeitamente o apelo do marketing sensorial e vêm mapeando — com precisão cirúrgica — a necessidade de pertencimento que a nossa sociedade sente cada vez mais.
E aqui reforço: a narrativa é mais sedutora que o produto. Nós, imersos em uma sociedade urgente, performática e efêmera, somos facilmente capturados por gatilhos emocionais que prometem pertencimento e exclusividade.
Spoiler: a euforia é momentânea. Logo surgirá um novo desejo, um novo objeto-espetáculo, um novo amuleto emocional.
Vivemos por narrativas e somos soterrados por um consumo que tenta encobrir ausências profundas.
Seria hipocrisia eu criticar o marketing — afinal, também uso gatilhos emocionais e sensoriais — porém acredito que entender esse mecanismo pode nos ajudar a construir narrativas mais conscientes, talvez até uma sociedade um pouco menos líquida.
No fim, não é sobre o copo de urso ou o chaveiro esquisito. É sobre a urgência de conforto que nossa sociedade carrega. E sobre o poder — quase mítico — de uma narrativa bem feita. O mundo pode evoluir e se modernizar, mas seguimos, obstinadamente, devotos de boas histórias.
E com isso… lá vou eu tentar comprar meu Bearista Cup. Afinal, eu também sou uma personagem prevista por Bauman, Debord, Lipovetsky e companhia.