A dor da despedida de um quase amor


Luana Schräder

Quando seus olhares se cruzaram pela primeira vez, era uma noite de verão. Ela jamais imaginou que um flerte discreto surtiria efeito a longo prazo. Ele, tampouco. Não foram capazes de calcular o quanto aquele amor confuso deixaria marcas em seus corações e em suas histórias, mas o amor tem dessas: ele nos surpreende de infinitas maneiras e deixa sua marca dourada em nossos corações, como uma cerâmica de Kintsugi. Bela, mas dolorida.

Ele disse que jamais esqueceria a expressão daqueles olhos castanhos no primeiro encontro, o olhar forte e questionador que o deixou desconcertado. E curioso.

Talvez tenha sido sempre mais questão de curiosidade e desejo do que amor propriamente dito.

Ela, em contrapartida, jamais esquecerá a sensação no fundo do estômago ao olhar para o enigma à sua frente. Estavam próximos fisicamente, mas a uma distância segura para que não fossem traídos por seus corações.

Mas naquela noite de outono, regada a vinho e pizza, mal sabiam o que o futuro os reservaria.
Quase dois anos depois do primeiro sorriso, em um início chuvoso de outubro, suas mãos se entrelaçavam pela última vez. Eles ainda não sabiam, mas o Universo tem a sua maneira de organizar as bagunças causadas por ele mesmo, e aquele que tiver um olhar mais atento a esses sinais, é quem será agraciado pela sabedoria cósmica.

Talvez o último entrelaçar de dedos não tenha sido por falta de sentimento, mas por falta de clareza.
Naquele momento, os olhos verdes dele não eram tão límpidos quanto ela havia desejado, escondiam segredos e mentiras, borravam a lealdade a três corações.
Ele alegou que o papel não tinha valor e que a queria, mas ela não se contentaria com migalhas. No fundo sabia que nada era como ele dizia, algo de errado se escondia na floresta daqueles olhos.
Talvez aquela nuvem sempre estivesse lá, mas ela era uma sonhadora com lentes cor de rosa que queria viver o amor sobre o qual escrevia. Mas como eu já contei, o universo abençoa os olhares mais atentos. E naquela manhã de outubro, o olhar dela era o mais desperto para os sinais dos astros.

O destino sempre tece seus fios e dá inúmeras chances enquanto movimenta seu tabuleiro de xadrez. Porém, até os astros cansam de lutar por aqueles que não tem coragem de tomar uma decisão. Decisões decidem futuros, mas indecisões também. Podemos perder o que achávamos que já era garantido ou ganhar o que poderia ser um presente enviado pelos Deuses. As decisões, há milênios, moldam a sociedade e as relações. Não decidir, também é uma resposta. E se escolher, é mais do que uma resposta: é um ato revolucionário de amor próprio.

No fone de ouvido, antes da decisão final, ela escutava uma das músicas deles. E quando Chad Kroeger (aka, Nickelback) cantou: “Quem era eu para fazer você esperar?”, enfim ela entendeu que era muito tarde e ele já havia esgotado a sua cota de chances.
Talvez a vida não seja como na ficção. Quem sabe, diferente do que ele supunha, ela não soubesse. O que ele calava e ocultava, ela não enxergava. Não era uma adivinha, precisava de gestos para além das palavras.

Pela última vez em seus fones de ouvido, a música que ele a enviou dizia: “Apenas mais uma chance, apenas mais uma respiração. Porque você sabe que eu te amo”.
Mas ela não sabia. E naquele suspiro decidido, em seu coração evaporou a última chance que ainda persistia e se repetia em um looping cansativo.

Por que se contentar em ser apenas uma parte da vida de alguém se existem tantos outros corações solos lutando pela chance de um amor tranquilo? Presentes e beijos, surpresas e sorrisos, tem um peso muito menor do que a lealdade que alguém pode nos entregar.
Nessa história, a princesa se salva no final, pois às vezes, é sobre deixar ir. Amor também é sobre se amar tanto a ponto de desistir de um amor que entrega migalhas.
E sem nenhuma foto juntos, talvez se percam em alguma fissura do universo e esse amor seja esquecido. Ou quem sabe os bilhetes dela o eternizem, afinal, ele teve a sorte de ser amado por uma artista. Mas não teve coragem o suficiente para a amar como merecia.

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Luana Schräder

E-mail: contatoluanaschrader@gmail.com

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