Luana Schräder
“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo tempo do mundo” (Legião Urbana)
Há alguns anos a minha avó perdeu o contato com a sua melhor amiga, não pelos desígnios da vida, mas pela maldade de pessoas próximas que arquitetaram esse afastamento doloroso.
Há alguns meses, a minha avó comentou que tinha o desejo de se reaproximar dessa amiga, pois sentia muitas saudades e tinha medo que não lhe restasse muito tempo para resolver isso em vida.
Ela, no auge dos seus 85 anos, saudável e consciente. No entanto, sábia como sempre foi, já começou a refletir sobre o findar da vida. O que é inevitável, todos sabemos.
Para mim, ela ainda tem muita vida para viver e viagens para fazer, mas compreendi esse desejo e tentei interceder por ela.
Enquanto tentava ver como poderia as reunir novamente, entrei em um looping questionador sobre a fragilidade do tempo.
Quanto tempo temos? Às vezes parece que temos todo o tempo do mundo, em tantos momentos é como se o tiquetaquear da vida estivesse em modo turbo e a areia deslizasse apressadamente pela ampulheta.
Temos a mania de deixar para amanhã, para mais tarde, para a próxima semana ou o próximo ano. Esquecemos da urgência. Jovens ou não, todos temos o mesmo tempo.
E esse tempo, é um grande enigma. Pode ser breve ou pode se estender por décadas, mas ainda assim é tão tênue quanto a linha que separa a vida da morte.
Minha avó sentiu a urgência do tempo, não por achar que estava morrendo, mas por achar que estava desperdiçando fagulhas de vida enquanto viva. E, ironicamente, se for olhar por uma ótica mais pessimista, estamos todos morrendo. Mas alguns decidem viver no meio do caminho, tentam enganar a morte e se lambuzar em cada segundo vital. A minha avó é uma dessas pessoas, ela não achou que estava morrendo, e sim que a vida precisa ser apreciada e aproveitada, afinal ainda estamos aqui. Enquanto houver vida, há tempo.
E em um dia comum, minha avó que já havia tomado a sua decisão de tentar retomar a amizade, foi surpreendida pelas mãos do destino que como o maestro de uma orquestra, fez um gesto etéreo e reuniu as duas amigas. Sem avisos e sem planejamento, apenas a vida acontecendo. Um esbarrão na rua, foi a forma do universo dizer que estava a ouvindo e aguardando que tomasse a decisão de consertar o passado. Bem, isso foi o que bastou para os astros se movimentarem e fazerem, como cantou Xande de Pilares, acontecer naturalmente. O reencontro foi lindo, com lágrimas e abraços. Situações esclarecidas, sentimentos compartilhados e promessas de permanência até o findar dos tempos.
Eu também chorei, afinal, desde criança fiz parte dessa amizade. Enquanto o meu avô tomava uma caipirinha com o marido dessa amiga, a minha avó tagarelava com a sua melhor amiga e eu vivia a infância ao lado do neto dela. Aquela teia de relacionamentos era bonita, era familiar e sempre foi um espaço seguro. Ver o abraço e lágrimas de reencontro delas, foi como ser abraçada pelas minhas memórias de infância e pela certeza de que não temos todo o tempo do mundo, mas podemos usar todo o tempo que ainda temos para viver. Curar as dores, limpar os remorsos e aceitar a impermanência do que passou.
E aqui, eu sai com duas lições:
• Nós não temos todo o tempo do mundo, cada segundo que passa é um tempo que passou;
• Quando emanamos para o universo os nossos desejos e o alinhamos com nossa frequência e pensamentos, ele se move como um cometa e nos entrega o que intencionamos.
É, Renato Russo... não temos todo o tempo do mundo, mas enquanto estamos por aqui, prefiro evitar o lamento de um Epitáfio* e acreditar que o acaso vai me proteger ao andar distraída por aí. Quem sabe, alguma serendipidade me encontre e eu possa usufruir das boas surpresas, me lambuzando no que me resta de tempo. Seja ele breve ou prolongado, escolho o fazer eterno a cada segundo.