Luana Schrader
Há algumas semanas li um conto intrigante que de imediato me causou desconforto, depois raiva e por fim me arrancou uma gargalhada sincera. Se o texto era bom? Ainda não sei opinar, mas ele cumpriu com seu papel na literatura, afinal, me desencadeou múltiplos sentimentos e emoções.
O texto conta a história de um jovem “sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto”, e além de tudo isso, ainda modesto. Como o mesmo referiu-se a si mesmo com tamanho orgulho e sutileza, afinal, era um “jovem com um intelecto gigantesco”.
Quanta modéstia, não é mesmo? Pobre do seu amigo, Peter Johnson que não era nada perto dele. E assim sendo, o mesmo foi alvo da luxúria do narrador dessa história. Vamos o chamar de Carl, assim fica mais fácil tornar essa crítica mais fluída e distinguir o amigo genial – Carl – do ignorante influenciável – Peter.
Bem, Peter era aparentemente vazio, adepto a manias e tendências, sendo “burro como uma vaca”. Mas Carl, tinha a lógica e a inteligência ao seu lado. Visto isso, ao ver o colega em sofrimento por não ter um casaco de pele marmota – aqui já piorou o meu ranço pelo personagem –, enxergou a oportunidade da sua vida.
Polly Stein era o nome dela. A namorada de Peter e alvo dos desejos mais mundanos de Carl, que com sua astúcia propôs a Peter uma troca: Polly por um casaco de marmota, um casaco de marmota por Polly. Como duas mercadorias passíveis de uma prateleira e trocas comerciais.
Peter teve as suas dúvidas, mas no fim das contas, ele era tão burro que topou a negociação e “entregou” sua namorada para o amigo.
E é agora que a graça começa, mas antes disso, lhe peço que não sinta tanta raiva quando eu e persista nesse texto. Juro, você vai dar boas risadas.
Após a “benção” do amigo, Carl seguiu com seus planos em relação a graciosa Polly e na noite seguinte a entrega do casaco de pele de marmota ao amigo Peter, teve o seu primeiro encontro com a belíssima, mas vazia, Polly.
Nesse momento, eu já podia enxergar o meu cérebro de tanto revirar os olhos, mas resolvi seguir com a leitura e ver até onde ia o absurdo daquele machismo e tantas outras coisas.
E é aí que a história fica melhor. Carl no auge de sua arrogância disfarçada de sabedoria, usou Polly como um ratinho de laboratório para uma “pesquisa preparatória”. Eu, vegetariana e contra experiências com bichinhos, já fiquei nervosa com as palavras de Carl e queria entrar no texto para salvar Polly como se ela fosse um ratinho em perigo. E de fato tudo se encaminhava para eu manter essa percepção.
Depois de um jantar e cinema com a sua idealização em corpo de mulher, Carl não estava satisfeito e se questionava sobre suas decisões, porém decidiu dar mais uma chance para a moça.
Não irei comentar, não agora, sobre o quão ridículo foi ele achar que seria extremamente caridoso dar uma chance para a mulher que no fim, teve a falta de sorte de dar uma chance para ele. Enfim, agindo sistematicamente como um estudante de Direito que frequentava aulas de Filosofia e Metodologia Científica, ele resolveu dar aulas de lógica à pobre Polly, afinal, ele “tinha tudo na ponta da língua”.
Encontro vai, encontro vem, e eu me questionava o quão pacífica era a garota que ainda não havia mandado ele ir se lascar. No decorrer dos dias, Polly aprendeu sobre lógica, que nas palavras de Carl: “é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da lógica”. Pena que o mesmo não identificava as suas próprias falácias.
Por alguns parágrafos foi um desfile de palavras como Dicto Simpliciter, generalização apressada, premissas contraditórias, Ad Misericordiam, envenenar o poço e por aí vai. Carl até pensou que “talvez fosse mais fácil ensinar lógica a um chimpanzé”, mas cegado por seu ego, não foi capaz de perceber que um chimpanzé é muito mais sábio do que ele. Assim como Polly e Peter, que poderiam não ter o Q.I do mesmo, tinham suas vicissitudes e falhas, mas eram capazes de não apenas ouvir como escutar. Eles até poderiam ser burros, mas nunca tiveram a pretensão de dizer que eram algo ao contrário do que realmente eram. Já Carl, subiu em um pedestal egocêntrico e sentiu-se um deus inabalável, até ser atingido por seu próprio ego. Sabe a história do escorpião se picar com o próprio rabo? Pois bem, é isso que o ego desequilibrado faz com nós mesmos.
E com isso, vamos ao gran finale desse conto “falacioso”. Afinal, ao findar de cinco dias, Carl havia transformado Polly. Ele a ensinara a pensar. Uau, que feito, não é mesmo? *contém altas doses de ironia”.
Agora sim, Polly – que por pouco não foi a Polly Pocket – estava a altura daquele homem sábio e genial. Com isso, Carl declarou-se, carinhosamente, afirmando que eram um bom par.
Logicamente, isso é uma generalização apressada, afinal como que ele poderia dizer que são um bom par baseado em apenas cinco encontros? Ele fazia suas propostas e a “agora sábia” Polly as rebatia com esplendor. Afinal, ela aprendeu rápido. Carl queria um ser pensante ao seu lado, e foi isso que ele recebeu. Todas as declarações foram rebatidas com uma lógica exemplar, e quanto mais Carl perdia sua compostura, mais Polly o mostrava que ela havia aprendido muito no decorrer daqueles cinco dias.
Quem sabe ela não fosse assim tão burra, não é?
Depois de um Dicto Simpliciter, o xeque-mate de Polly foi alegar que Carl usava o “envenenar o poço” ao falar mal de Peter e constatou que os gritos do jovem também eram uma falácia.
Ah, sim. No final das contas, Polly escolheu Peter. Pois obviamente, a razão lógica era que agora ele tinha um casaco de pele de marmota. Que Carl não tinha.
Ironicamente, Carl, no alto do seu pedestal, não percebeu que não era tão genial assim. Apenas mais uma vítima do ego e da arrogância de querer controlar as pessoas como marionetes.
O final, para mim, foi cômico. Me senti vingada por Polly e por todas nós que somos diminuídas ou silenciadas, me senti vingada pelos que são menosprezados por não “arrotarem caviar” e compreendi ainda mais a fábula espírita* que minha mãe sempre me contou.
Em suma, Carl nos ensinou que não interessa quanto conhecimento temos se não tivermos humildade. Se ainda precisamos de uma moral da história, eu diria que devemos aprender que aqueles que mais falam, nem sempre são os que mais fazem. Não basta falar e agir de forma contraditória, afinal, no fim o que irá contar são as nossas ações e não as nossas palavras.
Eu sou escritora e valorizo a palavra, mas sou humana e priorizo os gestos e ações coerentes com o que foi pregado. Não me interessa o que você faz, me interessa como você age quando ninguém está te assistindo. E assim deveríamos seguir a vida.
***
Bem, desculpe se lhe fiz passar raiva em boa parte desse texto, mas eu precisava compartilhar algo que me incomodou profundamente e me fez refletir intensamente. Espero que no fim das contas, você também tenha aprendido ou relembrado algo.
*Sobre a fábula espírita, resumidamente conta que um homem que palestrava na casa espírita e se dizia conhecedor de todos os livros e afins, morreu. No mesmo dia, outro frequentador da casa espírita, um homem muito mais simples e silencioso, também morreu. Os dois se encontraram nas portas para a entrada ao céu, mas apenas um deles entrou. Adivinha qual? Exato, o senhor simples e silencioso. Por que? Bem, enquanto um pregava, o outro agia. E foi por esse motivo que eu recordei dessa fábula, afinal, ao meu ver, essa segue a mesma lógica que o conto de Max Shulman. E mais uma vez, o ego foi o maior inimigo do ser humano.