A vida não nos protege do abismo — mas é no salto que descobrimos que sempre tivemos asas.


Luana Schräder

Há alguns dias postei no Substack (Assine minha newsletter 'Cartas para alguém' por lá) que estava lendo uma romantasia bem clichê, que chamariam de “água com açúcar”, mas eu achei ela tudo, menos algo bobo e sem tempero.

A narrativa de “O adorável café dos dragões” gira em torno de um dragão fofo, Sparky, e a capa pode até prometer fofura, mas o recheio traz tantas lições que só quem está atento às entrelinhas é capaz de captar.

Bem, entre os múltiplos ensinamentos e insights que tive, o que mais me chamou atenção foi sobre a coragem. Não só a coragem do pequeno dragão de ir para a vida adulta, como a de Saphira em decidir seguir os seus sonhos ao abrir a cafeteria, e a de Aiden em arriscar abrir seu coração.

Mas como eu me apeguei ao dragrãozinho e me conectei com seus desafios, é nele que irei focar e você vai entender os meus motivos para o escolher como centro das minhas metáforas e reflexões.

“Um dos meus poemas favoritos diz que devemos amar a vida, amá-la mesmo quando não temos forças para isso. Ser feliz é uma escolha que você precisa fazer ativamente.” (A.T. Qureshi)

Depois de sair do conforto do café mágico, do aconchego e da segurança do abraço de Saphira, com o tempo, Sparky não era mais um bebê. Ele precisava crescer. E para um dragão da sua linhagem, ele precisaria passar por uma iniciação desafiadora.

Cumprindo o ritual, foi levado para o Monte Echo onde seria “iniciado” a um novo ciclo em sua vida. O dragão precisaria ser posto a prova e “jogado na selva da vida adulta”. Literalmente jogado, pois o grande desafio que o levaria para a maturidade era: voar!

Senti meu estômago dar saltos quando o noviço responsável por essa parte do ritual, o levou em direção à encosta da montanha. Rapidamente, sem conversas ou consolos, sem cuidado e desculpas, o noviço jogou Sparky do alto da montanha.

Alguns segundos depois de muita tensão, o pequeno dragão emerge do penhasco e voa. Voa feliz. Voa orgulhoso. Voa sabendo que ele conseguiu vencer o maior desafio do início de sua vida.

E foi aqui que virou a chave na minha mente e assim como um cérebro faz milhares de sinapses por segundo, fiz inúmeras conexões com a veracidade daqueles trechos. Afinal, as múltiplas camadas dos desafios do pequeno Sparky, poderiam facilmente ser os desafios que enfrentamos na vida cotidiana.

Associei o noviço com a vida, com aquele fogo pulsante dos desafios que a vida nos coloca a prova. Assim como a vida, o noviço não confortava. Ele não explicava. Ele não prometia segurança. Ele simplesmente levou Sparky até a encosta da montanha e o empurrou. Sem garantias, sem palavras bonitas, sem ensaios. Só o salto.

E ali, naquela queda iminente, eu entendi: a vida funciona exatamente assim. Ela não te dá pousos garantidos. Ela não entrega manual de instruções. Ela só empurra, e só no ar você descobre que tem asas.

E o que torna essa cena ainda mais poderosa é que Sparky não estava sozinho. Saphira, com seu abraço acolhedor, seu café que cheira a casa e a afeto, e Aiden, com seus cuidados silenciosos e medo escondido, estavam ali. Tremendo por dentro, torcendo por ele, permitindo que ele caísse para, finalmente, se erguer.

E algumas coisas ficaram tão claras para mim: Coragem não é ausência de medo. Coragem é sentir o medo, o fogo, a incerteza, e ainda assim ir. É descobrir que a vida não te protege do abismo, mas te dá a chance de se lançar — e de perceber, no meio da queda, que você sempre teve asas.

E você, que já sentiu o chão sumir sob seus pés, sabe do que estou falando. Todos nós já fomos Sparky em algum momento. Todos nós precisamos de Saphira, de Aiden, ou apenas da fé silenciosa de que é possível.

Todos nós precisamos de coragem — a coragem de voar mesmo quando o mundo parece nos empurrar para o vazio.

No fundo, talvez seja isso que livros como O adorável café dos dragões nos lembram:

voar dói. Crescer dói. Mas a liberdade que encontramos no salto não tem preço.

E, vez ou outra, só precisamos de alguém — ou de algo — que nos empurre.

E mais uma vez, a literatura vem para mostrar que todos os livros são capazes de nos trazer lições, ensinamentos e/ou reflexões. Por isso, leia o que você gosta. E acima de tudo: tenha coragem de viver a sua verdade.

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Luana Schräder

E-mail: contatoluanaschrader@gmail.com

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