Luana Schräder
“A vida se contrai ou se expande na proporção da coragem do indivíduo.” (Anaïs Nin)
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E se hoje fosse o seu último dia? Você partiria em paz? Ou teria deixado muito por fazer? Você teria sido quem quis ser, ou apenas alguém que passou a vida suprindo os desejos e expectativas que colocaram sobre você?
Tenho pensado muito sobre a morte. Acho que 2025 foi o ano em que mais precisei refletir sobre o que existe — ou não — além da vida.
Há alguns dias, recebi a notícia de que um vizinho muito querido havia morrido. Do mais completo nada, de repente, ele já não existia mais. Não fisicamente.
Na mesma semana, fui atravessada por mais uma crise de Esclerose Múltipla. No mesmo ano, a doença me sacudiu e me relembrou de algo importante: talvez eu não estivesse seguindo aquilo que prometi a mim mesma quando eu e ela nos encontramos pela primeira vez, lá no início do ano.
Segui a vida no automático. Entre reabilitação e o desejo de esquecer o passado, não parei para refletir — apenas continuei.
E adivinha? Tentei me moldar às expectativas irreais que os outros colocaram em mim.
Achei que estava bem. Achei que estava feliz. Mas, na verdade, eu seguia quebrada e sangrando. Pensei que bastava tapar a ferida e continuar sorrindo.
Mas o corpo cobra. O corpo sente.
Foi em meio a esse turbilhão de sentimentos e sintomas que me deparei com um livro no Kindle. O título? O amor (depois) da minha vida, de Kirsty Greenwood.
A história é, resumidamente, sobre uma mulher que morre, chega ao céu, conhece o possível amor de sua vida, se despede dele antes mesmo de saber seu sobrenome — afinal, ele estava ali por engano — e, após assistir à retrospectiva da própria vida, ganha a chance de voltar à Terra por alguns dias, com uma missão.
Claro que isso me chamaria atenção. Eu me identifiquei com Delphie, a protagonista ex-falecida.
Delphie teve uma vida morna. Não fez o que realmente queria, seguiu fielmente o que esperavam dela e teve uma morte quase patética: engasgou com um hambúrguer de micro-ondas, usando uma camisola velha.
Curiosamente, ver a retrospectiva da própria vida foi mais doloroso do que descobrir que havia morrido.
E foi aí que me perguntei: quantas vezes deixamos de viver nossos sonhos, ou de ser quem somos, por medo, conveniência ou aprovação alheia?
Eu até poderia ficar relativamente satisfeita com a minha retrospectiva. Fiz muitas coisas, realizei sonhos importantes. Ainda assim, permiti que opiniões externas influenciassem escolhas que eram só minhas.
Acho que todos nós temos duas versões: a que se adapta ao que a sociedade espera e a que representa quem verdadeiramente somos.
Bem… para a sua alegria, Delphie voltou ao mundo real com uma missão e uma data limite. E isso me fez pensar que talvez todos nós estejamos aqui por um motivo — um propósito, uma missão, ou qualquer nome que você prefira dar. A diferença é que também temos uma data final… só não sabemos qual é.
Ela teve a chance de voltar depois de passear pelo “além-vida”. Teve a oportunidade de mudar uma retrospectiva vazia.
Mas e eu? E você?
Será que podemos contar com o fantástico quando chegar a nossa vez de partir?
A princípio, não.
O que tenho aprendido com a imprevisibilidade do ato de viver é que ainda assim podemos mudar de rota. Enquanto estamos aqui, podemos mudar escolhas, caminhos e destinos.
Quem sabe um simples “não” — dito no momento certo — seja suficiente para que nossa retrospectiva final, bem hollywoodiana, nos arranque um sorriso genuíno e orgulho de quem fomos e da coragem que tivemos.
Para mim, a esclerose múltipla tem sido uma grande professora este ano. Apesar de toda a vontade de despejar ódio sobre ela, talvez eu devesse agradecer. A doença me deu a chance de me reconectar com quem eu sou de verdade.
Enfim percebi que há paz em não ir. Em mudar de ideia. Em largar tudo aquilo que não vibra na nossa verdade.
Dizem que, se não aprendemos pelo amor, aprendemos pela dor. Pelo visto, eu não aprendi o suficiente no início deste ano tão difícil. Talvez ficar sem sentir parte do meu rosto tenha sido a forma que o universo — e a doença — encontraram de me dar mais uma chance de recomeçar. Mas dessa vez, pretendo honrá-la.
Não quero deixar este mundo sem seguir aquilo que a minha alma insiste em me pedir.
Talvez precisemos pensar sobre a morte para perceber a vida que pulsa enquanto estamos aqui. Afinal, o que temos é o agora. O futuro não é a vida acontecendo — e talvez ele nem exista nesse espaço-tempo da forma como imaginamos.
Que não sejamos como Delphie antes de conhecer o outro lado. Que possamos mudar a nossa retrospectiva final no dia a dia. Que não precisemos de uma doença para refletir sobre o tempo que temos.
Que possamos simplesmente viver, sem temer ser quem viemos ser — mesmo sem compreender totalmente o nosso propósito. Nem sempre sabemos. Nem sempre saberemos. Mas a alma sabe.
Finalizo com uma mensagem que encontrei nos meus escritos, da minha “eu do passado” para a minha “eu do futuro”, que por acaso, é essa aqui do presente. Espero que esse recado também lhe abrace:
“Recado especial para a minha eu do futuro: Não pira com o futuro, meu amor. Chegamos até aqui, mas não podemos controlar o FUTURO, esse ser mitológico que sempre te atazanou. Então… vai viver cada dia como se mais nenhum outro fosse existir! O seu super poder está exatamente aí. Então respira, e dorme. Tudo sempre fica bem.”
Ou seja: respire — e viva. Viva como se o amanhã não fosse existir.