Luana Schräder
Aproveitando que mais um Natal está batendo na porta, convido você a fechar os olhos por um instante e imaginar outra época… Uma noite fria no Hemisfério Norte, onde o vento sussurra entre árvores altas, e as estrelas cintilam como fragmentos de prata no céu. Talvez ali, longe das nossas rotinas e dos nossos celulares, seja mais fácil lembrar que muitas das imagens que hoje cercam o Natal nasceram de histórias antigas — de mitos, de contos ao redor do fogo e de poemas escritos por mãos que viveram séculos antes de nós.
Recentemente, durante uma aula de Mitologia e Literatura, me peguei pensando em como esses antigos contos estão escondidos nas tradições que celebramos hoje. E lembrei como o Natal que conhecemos é, na verdade, um mosaico de histórias, algumas tão antigas quanto a própria cultura nórdica.
Muito antes de o Papai Noel vestir vermelho, ele já se apresentava de maneiras diversas. Em diferentes épocas e lugares, o homem mágico que traz presentes foi representado em verde, azul, marrom… só no século XX, com campanhas publicitárias (Alô Coca-Cola), sua roupa se tornou a icônica vestimenta vermelha que conhecemos hoje. Ainda assim, suas cores diversas contam a história de como diferentes culturas o imaginaram ao longo do tempo, qualidades tão fluidas e mágicas quanto a própria imaginação humana.
Se viajarmos para o norte gelado da Europa, encontraremos o Yule nórdico — uma celebração do solstício de inverno em que as noites longas pareciam tocar a eternidade. Em meio ao frio, as histórias falavam de Odin, o sábio dos deuses, que cruzava o céu sobre seu cavalo Sleipnir, um animal extraordinário com oito pernas, capaz de percorrer distâncias impossíveis e atravessar mundos. A imagem de um cavalo que voa pelos céus foi um traço mitológico que ecoou, séculos depois, na ideia das oito renas que puxam o trenó do Papai Noel. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Imagine, então, a cena: um céu escuro salpicado de estrelas, uma figura encapuzada montada em um cavalo mágico; e, na imaginação dos povos, esse cavalo transformando‑se — com o tempo — em renas que bailam entre as nuvens na noite de Natal.
A poesia e o mito caminham lado a lado, e talvez por isso essas imagens sejam tão fortes: elas nos permitem sentir o impossível como se fosse tangível.
E os pinheiros? Eram símbolos de vida e resistência. Permaneciam verdes mesmo na noite mais longa e escura do inverno, lembrando que a esperança, assim como a vida, sempre encontra uma maneira de se mostrar.
Para os nórdicos, decorar árvores e acender luzes não era meramente festivo, era um ato simbólico, um gesto de conexão com a natureza e com a promessa de renascimento.
No século XIX, essa magia encontrou outra voz: um poema que, publicado em 1823 com o título “Account of a Visit from St. Nicholas”, mas mais conhecido pela primeira linha “’Twas the night before Christmas…”, descrevia a véspera de Natal de uma maneira que se tornaria profundamente familiar para gerações futuras.
Nesse poema, renas voadoras são nomeadas e chamadas com entusiasmo (Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen), e um bom velhinho aparece sorrindo enquanto entrega presentes com cuidado e alegria. Ele ajudou a concretizar a imagem moderna do Papai Noel, não apenas como um personagem alegre, mas como um símbolo de generosidade, imaginação e magia.
Ao pensar na jornada dessas histórias — do cavalo de oito pernas de Odin às oito renas que voam na noite de Natal, do pinheiro sagrado ao poema que transformou a véspera de Natal em um clássico — percebemos que o Natal é mais do que tradição. É um convite para olhar para o mundo com olhos curiosos, para acolher o mistério e para celebrar aquilo que nos une.
No Natal de 2025, quando você acender uma luz ou olhar para uma árvore decorada, lembre que essas tradições carregam séculos de imaginação humana.
Que a magia não esteja apenas nas luzes ou nos presentes, mas na generosidade de criar encantamento, de compartilhar alegria e de manter viva a chama da esperança.
Porque, no fim das contas, o Natal sempre foi isso: histórias que nos lembram que a magia existe — e que começa dentro de nós.
Feliz Natal! <3