Luana Schräder
“Muitos escritores não escrevem para se expressar, mas para não se perder. – Rosa Montero”
***
Lidos em conjunto, A Louca da Casa e O Perigo de Estar Lúcida funcionam menos como livros independentes e mais como partes de um mesmo pensamento em deslocamento. Como se Rosa Montero estivesse retornando obsessivamente à mesma pergunta — o que significa criar com intensidade — e, a cada retorno, movesse o perigo de lugar.
Em A Louca da Casa, o risco está na imaginação. Ela aparece como uma força indisciplinada, invasiva, quase uma entidade autônoma que toma conta do escritor. Imaginar demais ameaça a estabilidade, dissolve fronteiras, flerta com a perda de controle. A frase é simples e brutal: “a imaginação é a louca da casa”. Criar, ali, é sempre caminhar perto demais do excesso.
Já em O Perigo de Estar Lúcida, o eixo se inverte. O problema não é mais o delírio, mas a consciência.
Estar lúcida demais significa perceber em excesso, compreender demais, sentir demais — viver em estado permanente de alerta. A lucidez não ilumina; esgota. Pensar não traz descanso, traz peso.
É quase como um eco ao que Sylvia Plath já havia escrito, como se confirmasse essa intuição: pensar profundamente não traz abrigo, traz vertigem.
Entre um livro e outro, algo muda profundamente: o medo de enlouquecer dá lugar ao cansaço de estar consciente demais. Mas o abismo permanece. O que Rosa Montero parece sugerir é que não existe território seguro para o excesso — seja ele imaginação ou lucidez.
Essa reflexão se aprofunda quando ela aborda a relação incômoda entre criatividade e sofrimento psíquico. Rosa Montero fala abertamente dos problemas psiquiátricos enfrentados por artistas, especialmente escritores, e menciona pesquisas que indicam semelhanças estruturais entre o cérebro criativo e cérebros afetados por transtornos como esquizofrenia ou transtorno bipolar: maior associação livre, pensamento menos linear, sensibilidade exacerbada, dificuldade de filtragem. Não como equivalência simplista, mas como vizinhança perigosa.
Talvez isso ajude a explicar por que tantos escritores viveram no limite — e por que tantos não sobreviveram a ele. Rosa Montero cita diversos autores que se perderam quando não conseguiram mais escrever, que enlouqueceram ou se suicidaram quando a linguagem deixou de funcionar como contenção.
A escrita surge, então, não como luxo, mas como necessidade psíquica. Muitos artistas não escrevem para se expressar, mas para não se perder.
Essa ideia deixa de ser abstrata quando toca a experiência pessoal. Quando não estou pensando em um novo romance, me sinto perdida. Não no sentido dramático, mas estrutural, como se algo tivesse saído do eixo. E quando não posso escrever, não sinto exatamente tristeza. Sinto um esvaziamento. Um oco. Como se a escrita fosse menos um projeto e mais um modo de manter alguma coerência interna.
Talvez por isso exista urgência. Não aquela urgência produtiva, eficiente, mas uma necessidade contínua de estar gestando algo — uma história, uma ideia, um romance em formação. Quando isso desaparece, não vem descanso. Vem desorientação.
Nesse ponto, a escrita deixa de parecer escolha e passa a parecer sobrevivência. Não cura, não resolve, não pacifica — mas contém. Cria uma margem entre o excesso e o colapso.
É impossível não pensar essa ideia em diálogo com As Margens e o Ditado, de Elena Ferrante. Ferrante pensa a escrita como um gesto que nasce da margem — do lugar do desconforto, da fratura, do que não se acomoda — e tenta, com dificuldade, se inscrever numa linguagem que vem do centro, da norma, do ditado.
Escrever seria sempre um atrito: tentar dizer o que nasce na margem com ferramentas que nunca dão conta completamente.
Talvez seja isso que una essas reflexões: a imaginação excessiva empurra para a margem; a lucidez excessiva também. O centro — estável, funcional, equilibrado — raramente é habitável para quem cria. A escrita não resolve essa tensão, mas oferece um lugar precário onde ainda é possível permanecer.
Não por acaso, figuras como Sylvia Plath atravessam constantemente esse pensamento. Plath encarna, de forma extrema, a sobreposição entre lucidez radical, sensibilidade intensa e vulnerabilidade psíquica. Em sua obra, pensar profundamente não oferece abrigo — oferece vertigem. A lucidez não protege; expõe.
Nada disso romantiza o sofrimento. Pelo contrário. O que emerge é uma constatação dura: viver e criar intensamente tem custo. E ignorar esse custo não o elimina.
Entre a loucura da imaginação e o perigo da lucidez, a escrita talvez seja apenas isso: um gesto de permanência. Um modo imperfeito, instável, mas vital de continuar existindo sem reduzir o excesso, sem pedir desculpa por sentir demais, sem transformar imediatamente a intensidade em diagnóstico ou virtude.
Talvez escrever seja, no fim, aprender a habitar a margem — não como refúgio, mas como condição.